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Santa Teresa, Rio de Janeiro: o morro onde o Rio desacelera

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Santa Teresa, Rio de Janeiro: o morro onde o Rio desacelera

Uma ladeira de paralelepípedos de bondes, ateliês e longos almoços, Santa Teresa troca acesso à praia por mansões coloniais, bordas de floresta tropical e o tipo de vista que faz você demorar.

O bonde amarelo ainda sogue do Centro, raspando os arcos brancos do antigo aqueduto Carioca antes de entrar em um morro de ruas de paralelepípedos, vislumbres da selva e mansões coloniais descascadas. Aquele som — a campainha do bonde em uma curva cega, o barulho de metal sobre metal, a breve pausa quando ele para — é Santa Teresa em miniatura: o Rio antigo se movendo no seu próprio ritmo, acima do trânsito e abaixo das nuvens.

O que Santa Teresa é conhecida

Santa Teresa fica em um morro íngreme de granito entre o Centro e a Lapa, perto o suficiente para ouvir a cidade, mas separado dela, envolto em uma franja da floresta da Tijuca. As ruas são estreitas, de paralelepípedos e raramente planas; ateliês, pousadas e mansões centenárias se inclinam umas nas outras, semi-engolidas por mangueiras e buganvílias. Gatos tomam sol nos muros dos jardins, macacos ocasionalmente invadem as figueiras, e a campainha do bonde anuncia sua presença em curvas cegas. É boêmio no sentido próprio, não na versão de folheto: estúdios salpicados de tinta com portas abertas, samba vindo de um bar que você não consegue localizar, e longos almoços que viram tardes sem pedir desculpas.

O bairro recebe o nome do Convento de Santa Teresa, cuja pedra fundamental foi lançada em 1750. O convento carmelita deu identidade ao antigo Morro do Desterro e, ao longo dos séculos, o morro se encheu de mansões de barões do café e, depois, dos artistas que colonizaram essas casas desbotadas. Se você quer a versão resumida do lugar, é isso: convento, café, arte, bonde. Mas Santa Teresa é melhor compreendida andando por ela devagar, uma ladeira de cada vez.

O emblema é o bonde — o último bonde elétrico em funcionamento no Rio — que desliza do Centro sobre o aqueduto dos Arcos da Lapa e sobe o morro pela Rua Joaquim Murtinho. É mais que transporte; é a cena de abertura do bairro, um pouco teatral, um pouco rangente, e ainda fazendo o trabalho para o qual nasceu.

o bonde amarelo de Santa Teresa atravessando o aqueduto dos Arcos da Lapa na luz da manhã, com os arcos brancos abaixo e o morro se elevando adiante

O outro ícone é a Escadaria Selarón, a escadaria de mosaico de 215 degraus que desce em direção à Lapa. O artista chileno Jorge Selarón começou a azulejar os degraus fora de sua casa em 1990 como uma homenagem ao Brasil, eventualmente cobrindo-os com mais de 2.000 azulejos de mais de 60 países. A escadaria liga oficialmente a Rua Joaquim Silva, na Lapa, ao morro de Santa Teresa, então pertence a ambos os mundos, e parece com isso: metade obra de arte pública, metade artéria urbana, tudo cor.

Santa Teresa também é o bairro dos estúdios do Rio. Ateliês de portas abertas, pequenas galerias e a caminhada anual de arte Arte de Portas Abertas mantêm o pulso criativo do bairro visível, enquanto o Carnaval traz seu próprio grupo de seguidores leais. O Céu na Terra desfila pelas ladeiras na manhã de sábado de Carnaval desde 2001, e as Carmelitas carregam sua própria lenda de uma freira do convento que pulou o muro para se juntar à festa. Isso é Santa Teresa em uma frase: séria sobre arte, nada séria sobre ficar parada.

Onde comer e beber

O almoço é o evento principal aqui, e na maioria das vezes significa feijoada. A mesa mais famosa é o Bar do Mineiro, na Rua Paschoal Carlos Magno, aberto desde 1992, onde as paredes são cobertas de fotos preto e branco e o clima é de conforto barulhento. Peça a feijoada completa, que serve confortavelmente duas ou três pessoas, adicione bolinhos de feijoada se você ainda não estiver comprometido, e deixe uma caipirinha forte fazer o que faz de melhor. Nos fins de semana, chegue cedo; este é o tipo de lugar que lota rápido porque todos no bairro sabem exatamente por que estão lá.

uma mesa de almoço lotada no Bar do Mineiro com uma feijoada completa fumegante, tigelas de arroz e farofa, e uma caipirinha em uma mesa de madeira desgastada

Para uma visão mais ampla do Brasil, o Espírito Santa, na Rua Almirante Alexandrino, traz a Amazônia para o morro. A chef Natacha Fink, que cresceu perto de Manaus, cozinha com tucupi, tucumã e peixe de água doce em uma mansão de 1875 ao lado da linha do bonde. O cenário importa aqui: casa antiga, tetos altos, a sensação de que o jantar entrou em um lugar com história e decidiu ficar. É o tipo de restaurante que lembra que o Rio não é uma única culinária, mas muitas, entrelaçadas pela distância e pelo apetite.

Na mesma rua, o SobreNatural é o local ideal para moquecas e peixe grelhado do dia. Você vem aqui pelos frutos do mar, sim, mas também pela confiança tranquila de um restaurante de bairro que sabe exatamente o que é. Se você quer algo mais enraizado no nordeste, o Bar do Arnaudo, no Largo dos Guimarães, serve comida sertaneja honesta desde 1970, com carne de sol e macaxeira sob pinturas do próprio Selarón. É um daqueles ambientes que parecem vividos em vez de projetados, o que geralmente é o melhor sinal.

O Café do Alto cuida da parte da manhã com um café da manhã nordestino que pode se estender até o almoço: tapioca, cuscuz, o tipo de prato que te mantém firme enquanto você planeja não fazer quase nada. A Adega do Pimenta, na Rua Almirante Alexandrino, passou quatro décadas servindo cerveja alemã junto com salsichas e joelho de porco, o que parece improvável até você se sentar e perceber que Santa Teresa sempre foi um lugar onde as influências chegam e ficam.

No topo do mapa gastronômico fica o Aprazível, um restaurante familiar em um jardim no topo do morro com palha, com uma listagem no Guia Michelin e uma vista que alcança o Centro e a Baía de Guanabara. A culinária regional brasileira da chef Ana Castilho vem com caipirinhas feitas de carambola e maracujá, e toda a experiência é calibrada para prolongar-se. Este não é um restaurante de parada rápida. É para onde você vai quando quer que o jantar se torne a noite.

o terraço no topo do morro do Aprazível ao pôr do sol, com velas na mesa, telhado de palha, e o Centro e a Baía de Guanabara espalhados abaixo

Vida noturna

A cena noturna de Santa Teresa é discreta e voltada para a música, em vez de baladas, que é exatamente por que funciona. As baladas barulhentas ficam a cinco minutos de carro descendo a Lapa; aqui em cima, a noite é sobre conversa, cachaça e um ambiente que deixa a noite respirar.

O grande bar antigo é o Armazém São Thiago, universalmente conhecido como Bar do Gomez. Começou como uma venda de esquina em 1919 e se tornou um botequim sem perder sua essência: garrafas empilhadas até o teto, pisos de mosaico, uma lista de caipirinhas construída a partir de uma longa linha de cachaças, e uma multidão que fica mais barulhenta conforme o fim de semana chega. É tombado e orgulhosamente sem polimento, o tipo de bar onde o ambiente em si parece parte do cardápio.

o interior com piso de mosaico do Armazém São Thiago (Bar do Gomez), com garrafas empilhadas até o teto e uma multidão movimentada de fim de semana sobre caipirinhas

Para algo mais atmosférico, o Bar dos Descasados fica no jardim do Santa Teresa Hotel, construído sob os arcos das antigas senzalas restauradas da mansão. Pense em luzes cintilantes, velas, DJs nos fins de semana e uma vista do pôr do sol sobre a cidade. É mais elegante e mais caro que os bares de rua, mas o cenário vale seu preço. É aqui que Santa Teresa desliza da tarde para a noite com um pouco mais de refinamento.

A jogada local é simples: faça de Santa Teresa o seu início de noite — drinks e jantar por volta das 19h às 22h no Largo dos Guimarães — depois pegue um aplicativo de carona para a Lapa para ouvir samba ao vivo no Rio Scenarium ou no Carioca da Gema quando a noite de fato começar. As ladeiras do morro ficam escuras e silenciosas após o jantar, então pular de bar em bar a pé tarde da noite não é o plano. Corridas de porta em porta são.

Do Largo do Curvelo, é uma curta caminhada até o Parque das Ruínas, a casca sem telhado do solar belle époque da socialite Laurinda Santos Lobo, renascido com passarelas de vidro e aço como centro cultural gratuito. O terraço tem um dos melhores panoramas gratuitos do Rio, sobre o Centro, a baía e o Pão de Açúcar. Há mirantes nesta cidade que pedem muito e dão pouco; este retribui de verdade.

a casca sem telhado e as passarelas de vidro do Parque das Ruínas, com uma ampla vista do terraço sobre o Centro e a Baía de Guanabara no final da tarde

Ao lado, o Museu da Chácara do Céu abriga o acervo do industrial Castro Maya, com peças de modernistas europeus ao lado de arte brasileira, e jardins com vista para o mar. É uma parada mais tranquila que o terraço vizinho, mas não menos essencial para quem quer entender a longa conversa do bairro entre riqueza, colecionismo e reinvenção.

O resto é passear: ateliês de porta aberta, pequenas galerias e arte de rua ao redor da Rua Áurea e Rua Joaquim Murtinho, o mosaico cerâmico da Escadaria Selarón na divisa com a Lapa, e o Convento de Santa Teresa no topo do morro. Santa Teresa recompensa a caminhada não planejada, aquela em que você segue uma porta de estúdio entreaberta ou uma mancha de sombra e se encontra num lugar melhor do que o mapa sugeria.

Vá a pé, mas use sapatos de verdade — os paralelepípedos são íngremes e irregulares — e programe um mirante para o final da tarde. A luz aqui é mais amena quando começa a rarear, quando a baía fica prateada e a cidade lá embaixo se suaviza em camadas.

Don’t miss in Santa Teresa

  • A Escadaria Selarón, uma escadaria colorida de azulejos que liga o bairro à Lapa.

  • O Parque das Ruínas, um centro cultural construído sobre as ruínas de uma mansão belle époque.

  • Andar no histórico bonde amarelo sobre o Aqueduto da Lapa.

Compras e mercados

Este não é um bairro de shoppings. O centro comercial grande mais próximo fica descendo em Botafogo, e Santa Teresa é mais feliz sem esse tipo de lógica. O que ela vende é artesanato e arte: ateliês de porta aberta espalhados pela Rua Joaquim Murtinho, Rua Áurea e pelo Largo dos Guimarães, onde pintores, ceramistas e ourives trabalham com seus estúdios abertos para a rua. O prazer está tanto em olhar quanto em comprar, e em ver algo sendo feito onde ainda se sente o cheiro da tinta ou do barro.

O melhor momento para isso é o Arte de Portas Abertas, duas vezes por ano, quando dezenas de artistas no morro abrem suas portas por um fim de semana e o bairro inteiro vira uma galeria a pé. Durante o ano, você encontra pequenas lojas de design, bancas de livros usados e barracas de artesanato perto do Largo, além de cachaça para levar para casa das prateleiras do Bar do Gomez. Se quiser uma feira maior de antiguidades e artesanato, a feira de antiguidades da Rua do Lavradio, na vizinha Lapa, acontece no primeiro sábado do mês e fica a uma curta descida.

Onde ficar em Santa Teresa

As pessoas escolhem Santa Teresa pelo charme e pela tranquilidade, em vez da conveniência da praia. Você troca uma caminhada matinal até a areia por vielas de paralelepípedos, pousadas com jardim e vistas da cidade, uma troca justa se o que você quer é atmosfera em vez da rotina de toalha e areia.

O endereço emblemático é o Santa Teresa Hotel RJ – MGallery, uma boutique de 44 quartos em um solar-café do século XIX, sede do restaurante Térèze (guia Michelin) e do atmosférico Bar dos Descasados. A Mama Ruisa é menor e mais romântica, um hotel-casarão com vista para a Baía de Guanabara, e o morro é pontilhado de pousadas e albergues com muito charme a preços mais suaves.

Procure um lugar a uma curta caminhada do Largo dos Guimarães ou do Largo do Curvelo, para que você possa chegar a bares, ao bonde e aos mirantes a pé, e verifique se o acesso íngreme e com degraus funciona para sua bagagem. Este não é o lugar para chegar com uma mala que dá trabalho. Atende viajantes que montam uma viagem em torno de gastronomia, cultura e vistas da cidade, não sol e areia.

Onde ficar aqui

Hotéis em Santa Teresa

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Como chegar e circular

A chegada emblemática é o bonde: pegue o metrô até a estação Carioca no Centro, saída B na República do Chile, caminhe até o terminal de bondes na Lélio Gama, perto do edifício da Petrobras, e pegue o bonde amarelo que sobe sobre o aqueduto. Funciona de terça a domingo, aproximadamente das 8h às 17h, a cada 15–30 minutos, por cerca de R$ 20 (ida). Vale a pena só pelo passeio, mas também faz sentido prático se você quiser a entrada clássica.

Não há estação de metrô no morro em si; a mais próxima é Glória, na base, de onde se sobe íngreme a pé ou de táxi. Na prática, a maioria dos visitantes chega a Santa Teresa por aplicativo de carona ou táxi — barato, rápido e a escolha sensata depois de escurecer, quando as ruas tranquilas são melhor não percorridas sozinho. Dentro do bairro, tudo ao redor do Largo dos Guimarães, Largo do Curvelo e Parque das Ruínas é caminhável, mas é realmente íngreme e de paralelepípedos, então vá com calma e use sapatos adequados.

Conte com cerca de 15 a 25 minutos de carro para Copacabana e Ipanema, alguns minutos descendo para a vida noturna da Lapa, e aproximadamente 40 a 60 minutos para o Aeroporto Internacional do Galeão, dependendo do trânsito. Santa Teresa fica perto da ação, mas nunca se comporta exatamente como a ação. Esse é o charme.

Bom saber

Santa Teresa — suas perguntas

Santa Teresa é uma boa área para se hospedar no Rio de Janeiro?

Sim, se você busca personalidade, arte e vista da cidade mais do que acesso à praia. É uma das melhores escolhas do Rio para estadias boutique, atmosfera colonial e um ritmo mais lento e artístico, e fica perto da Lapa quando você quer vida noturna. O lado negativo é o morro: é íngreme e de paralelepípedos, não tem praia a uma curta distância a pé, e você vai descer para Copacabana ou Ipanema.

Santa Teresa é seguro?

De dia, é um bairro relaxado e gratificante para explorar. Após o anoitecer, as ruas ficam quietas e mal iluminadas, então a dica local é usar aplicativos de carona ou táxis de porta em porta em vez de andar sozinho, e manter celulares e objetos de valor guardados. Trate com a cautela normal de uma cidade grande e você deve ficar bem.

Como chegar a Santa Teresa e o bonde vale a pena?

A forma clássica é o bonde amarelo perto do metrô Carioca no Centro, que sobe sobre o aqueduto dos Arcos da Lapa até o Largo dos Guimarães. Funciona de terça a domingo, custa cerca de R$20, e vale absolutamente a pena pelo passeio e pelas vistas. Táxis e aplicativos de carona são a opção mais fácil do dia a dia.

Para que Santa Teresa é melhor?

Santa Teresa é ideal para arte, atmosfera, arquitetura colonial, mirantes e longos almoços. É o bairro do Rio para prolongar-se — sobre feijoada, sobre um terraço ao pôr do sol, sobre uma visita a uma galeria que se transforma em uma caminhada pelas ladeiras.